sábado, 27 de junho de 2009

A VIAGEM. 3. Terra.

Há já várias horas que caminhavam por entre um bosque cerrado. Pelo menos as horas passadas pareciam muitas mas, como Túndalo sentia que o cansaço se lhe aliviava a cada novo passo, pensou para si que talvez ele não soubesse nada acerca de horas ou talvez as horas sempre tivessem sido diferentes do que lhe parecia. A verdade é que a escuridão verdejante em que caminhavam não dava sinais de nascer nem de pôr de sol e todo aquele tempo parecia demasiado para uma só noite. Mas seria a noite, de facto, uma verdade consistente? - pensou Túndalo. Seguiam calados e, sem saber porquê, não lhe apetecia interrogar o anjo sobre todas estas dúvidas que lhe acudiam ao espírito.

Por fim, a caminhada desembocou numa ampla clareira. As árvores foram repentinamente substituidas por um chão raso e nu, vermelho e seco, que se estendia até muito longe. Túndalo estacou e, com ele, o anjo. E agora? Que fazia ele ali, naquela imensa eira barrosa que não levava a lado nenhum?
- Onde vamos? - perguntou ao anjo.
- Porque paraste? - perguntou o jovem luminoso.
- Mas onde queres que vá? - ripostou Túndalo, com um gesto enfastiado - afinal o que pretendes com isto?
- Túndalo, Túndalo... - riu-se o companheiro - não aprendeste nada? Julgas que se pode parar a meio do caminho?
- Mas porque não podemos ficar aqui na orla do bosque? Ao menos haverá frutos ou sementes para comermos e talvez a manhã nos traga um pouco de orvalho que nos mate a sede. Aí por onde vais só vejo ermo e secura...
- Tens fome ou sede?
- Não, ainda não, mas vou ter.
- E se não tiveres, porque terás ficado aqui? E de que manhã estás tu a falar?
- Bem, acabará por amanhacer, mais cedo ou mais tarde, não? - atirou-lhe Túndalo.
- Vá lá... - murmurou o rapaz de branco sem sinal de ter entendido a ironia - não queres resposta para as tuas perguntas? Tens de vir...
- Mas porque não me respondes aqui?!
- Não te impacientes. Olha lá ao fundo, por trás daquela nebelina.
Túndalo apurou os olhos na direcção apontada. Muito distante conseguia ver uma nuvem parda que parecia pairar sobre os vapores avermelhados daquele longo e rubro deserto.
- Só vejo uma nuvem. Que tem ela de especial?
- Tens de ir mais perto para saberes. Tens de continuar a andar.
- E que me interessa isso? Quero lá saber do que está por trás da nuvem!
- Como sabes que não queres saber se não sabes o que é ?
- E como sei que quero?
- Chegando mais perto. É a única forma. Vamos!


O anjo parecia determinado. Abandoná-lo-ia se ele se deixasse ficar? Provavelmente. Ficar ali sozinho é que não. Como faria para voltar para casa? Pensar na sua casa fez-lhe de repente chegar as lágrimas aos olhos. A sua boa cama de lençóis de linho, o seu dossel de seda que lhe embalava o sono, os risos dos amigos povoando a mesa, a alegria das canecas girando de mão em mão... Tinha de voltar para casa! Portanto, restava-lhe seguir em frente.
Começou a andar adiante do anjo, que sorria da sua pressa. Começou a contar os passos, para calcular mentalmente quanto faltaria para acabar de atravessar o ermo vermelho. De cabeça baixa, punha metodicamente um pé à frente do outro.
O anjo começou a assobiar, fazendo-o virar a cabeça de espanto. Que bem que ele assobiava! Parecia uma flauta que o seguia e lhe elevava os passos. Nunca antes tinha ouvido uma música assim, tão suave e alegre ao mesmo tempo! Não se atrevia a dizer uma palavra, enlevado na melodia, e acabou por se esquecer de contar os passos. Não sentia fome, nem sede, nem cansaço. Aliás, não sentiu nada além de uma espécie de felicidade que lhe vinha do assobio do seu companheiro, até que, ao longe, por entre a névoa distante, julgou divisar algumas formas. Que seria aquilo? Parecia brilhar no alto de uma colina e clareava como a manhã mais ensolarada que alguma vez vira.




Não fazia ideia de quantos passos dera afinal mas a verdade é que se abeiravam agora da base da colina e a nuvem que a envolvia ocultava-lhe apenas o topo, deixando ver uma encosta florida de margaridas e lilases. Ou seriam outras flores? A cor estava certa mas nunca vira flores tão grandes e tão viçosas, suavemente dobradas por uma brisa fresca que soprava de leste. Não dera por nascer o sol mas a verdade é que ele se estendia agora por todo o lado, brilhando nos olhos do anjo como pérolas.
Que jardim seria aquele? E o que esconderia a nuvem lá em cima? Seria longa a distância até ao topo? Tinha de ir ver !


- Queres ficar por aqui ? - perguntou o anjo, sentando-se.
- Aqui?! Nem penses! - respondeu Túndalo - Vamos subir!
- Ah! – exclamou o anjo - pensei que talvez quisesses parar, podíamos descansar um pouco entre estas flores...
- Mas tu estás cansado?! Que anjo me saíste! Eu estou muito bem, vamos lá, levanta-te!
- Está bem... - disse o anjo, estendendo-lhe a mão - ajuda-me aqui! Ainda tenho de procurar o melhor caminho para subirmos.
- Então, então, rapaz... - disse Túndalo, puxando-o pela mão a apontando uma vereda que se escondia sob uma cascata de flores - não estás a ver ali? É o caminho.
- Bom... vamos lá então.
Pintura: o Salvador.
(Insiste em continuar mas há-de acabar-se-me na próxima, juro! ...)





sábado, 25 de abril de 2009

A VIAGEM. 2. A ponte.


Estendendo-lhe a mão, o jovem empurrou a pesada porta que se entreabriu com um rangido. Um arrepio percorreu a espinha de Túndalo, porque lhe pareceu aquilo ranger de dentes e porque a luz não inundou a sala como ele esperava. Olhou para trás e viu o seu corpo caído no chão da taberna. Compreendeu que o caminho era em frente e seguiu o jovem.
Lá fora flutuava no ar uma finíssima cinza que obscurecia quase tudo. Subitamente cortou-lhe a visão uma figurinha negra que lhe guinchou aos ouvidos. Atordoado, Túndalo recuou mas por pouco tempo porque atrás do primeiro vinham dezenas de criaturas iguais, negras e insuportavelemente gritantes. Voavam com umas pequenas asas de morcego e em breve o tinham cercado, separando-o do seu guia, e cantando desafinadamente:

Alma cativa,
cantamos a morte,
de que és filha
e da má sorte!
Amiga das trevas
pasto do fogo!
Ai mesquinha,
eis o teu povo!
E a soberba, onde é que a trazes?
E a discórdia, não a abraças?
Vamos! à peleja, à cobiça, rapazes !
à vanglória, à lama, às armas!


Túndalo queria afugentá-los mas não podia. A cada momento chegavam mais, vindos de todas as ruas. Então o rapaz de branco gritou-lhes bem alto que se fossem e eles calaram-se imediatamente. Murmurando contrariados, começaram a sair, deixando atrás um zum-zum atordoante. Túndalo sentiu quebrar-se-lhe o ânimo e levou as mãos aos olhos para esconder as lágrimas. Mas o guia, que cortara o ar com uma mão e segurava por uma perna uma daquelas criaturas, mostrou-lha sorrindo e disse-lhe:
- Vamos lá, que é isso? Estou contigo desde que nasceste e nunca deixei que nada de mal te acontecesse!... Olha, não é uma coisa feia este diabinho ? Passava o tempo empoleirado no teu ombro a segredar-te e deu-me muito trabalho estar sempre a enxotá-lo. Agora que já o conheces espero que deixes de lhe dar ouvidos. Vamos, que a viagem é longa!


A caminho pelas ruas desertas e escuras, Túndalo sentiu-se reconfortado. Do seu companheiro emanava a luz de que necessitavam e em breve o espaço começou a alargar-se à sua frente. Sairam da cidade e caminharam durante muito tempo por uma floresta densa. Chegaram, por fim, ao extremo do caminho, que parecia terminar abruptamente num promontário de onde não podia sair-se sem voltar para trás. Mas o anjo, que o trouxera, apontou para baixo e Túndalo viu estender-se no fundo de uma escarpa um imenso vale. Sentou-se, com o guia, tentando entender o que via. De um túnel chegavam almas em fila, empurradas com forquilhas pelas detestáveis criaturas negras e obrigadas a entrar dentro de uma fornalha acesa. O cheio no ar era nauseabundo. A fornalha tinha uma saída em forma de bico de jarro, de onde as almas saíam derretidas como cera. Eram recolhidas pelas criaturas negras numa espécie de sertãs e depois atiradas num lago gelado, onde nevava continuamente e onde o vento as não deixava paradas. Aí voltavam à sua forma anterior e ficavam capazes de andar. Então eram empurradas por uma escada até à entrada de uma ponte muito comprida, da largura de apenas um pé, que ligava o ponto onde Túndalo estava e o outro lado do vale. Sobre aquela ponte teriam de atravessar o vale, a menos que caíssem no fundo, habitado por uma enorme besta com duas cabeças. Cada cabeça tinha olhos como outeiros acesos e de cada bocas saíam duas serpentes. As almas que caíam eram mastigadas por uma daquelas cabeças e, depois de devidamente trituradas, eram devolvidas à fornalha.


- Temos de chegar ao outro lado – disse o guia.
- Como ?! – exclamou Túndalo, sobressaltado – que queres dizer?
- Que teremos de nos encontrar do outro lado e nem tu podes vir comigo nem eu posso atravessar contigo a ponte.
- Mas não disseste que estarias sempre comigo?!
- Sim, vou estar lá do outro lado à tua espera. Podes ter a certeza disso. Não te abandonarei.
-Mas... – Túndalo estava realmente zangado – muito obrigado! Estás comigo mas não nos piores momentos!
- Então – disse o guia, pondo-lhe a mão no ombro – acalma-te. Se olhares para o final da ponte ver-me-ás à tua espera de mão estendida. Só tens de manter o pensamento na minha mão e dar um passo de cada vez, sem tentares chegar depressa de mais.

E dizendo isto, desapareceu para reaparecer imediatamente do outro lado do vale. Como não podia voltar sozinho para a floresta, Túndalo levantou-se e aproximou-se do início da ponte tentando ganhar coragem. Só então percebeu que a longa tábua tinha cravos aguçados espetados nalguns pontos e que teria de ter muito cuidado para não espetar os pés. Inspirou profundamente e tentou concentrar-se na mão do anjo, que o esperava do outro lado. Começou a travessia avançando devagar, esforçando-se por não tropeçar nos cravos e pondo cuidadosamente um pé de cada vez sobre a estreita tábua. Apesar de ver distintamente o guia do outro lado, pareceu-lhe que a ponte era maior do que julgara, porque já estava a caminhar há algum tempo e ainda nem a meio tinha chegado. Parecia-lhe mesmo que quase não tinha saído do mesmo sítio, embora continuasse a andar firmemente, com os olhos postos alternadamente no guia e nos cravos espetados na tábua. Doíam-lhe os músculos da tensão e do esforço e sentia-se tão sozinho que a dor se tornava insuportável. Queria pelo menos poder parar um pouco, sentar-se e talvez chorar mas tinha a certeza de que, se parasse, não conseguiria recuperar o equilíbrio que o mantivera até agora a salvo das goelas do monstro das duas cabeças. Para não pensar nisso, começou a trautear uma cantiga muito velha, que costumava cantar em criança, quando brincava com os outros rapazes. Só se lembrava de uma quadra mas repetia-a interminavelmente.
Ah, parecia que já tinha ultrapassado o meio da ponte, quase sem dar por isso. A mão do anjo estava tão perto! As dores desapareceram instantaneamente, e sentiu que a ponte deixava de estar assente no topo das duas montanhas que ligava. Na verdade, a ponte parecia flutuar e o monstro e o negro vale lá em baixo tinham desaparecido. Estava envolto numa névoa rosada e odorífera e saltar da ponte para se enterrar nela como se de um monte de feno se tratasse era precisamente o que lhe apetecia. Afinal não precisava de chegar ao outro lado, podia saltar da ponte porque não havia vale nenhum e não precisava do guia para nada. A euforia enchia-lhe o peito e começou a pensar que talvez tudo aquilo não tivesse passado de um sonho. Anjos, diabos negros, almas derretidas no fogo? Onde fora buscar tanto disparate? Nunca se sentira tão bem na sua vida, tão plenamente flutuante e etéreo! Ah, precisava mesmo era de ralhar com o taberneiro, que andava a dar-lhe não sei o quê que o fazia ter visões!
Começou a rir-se com gosto, estremecendo os ombros a ponto de pôr em risco o seu equilíbrio sobre a ponte.
- Túndalo ! Túndalo ! Estás quase a chegar ! Olha a minha mão !
O riso gelou-se-lhe na garganta. Era a voz do anjo! Mas onde estava o patife? Tentou ver através da névoa suave de odor adocicado e pareceu-lhe divisar a mão do anjo estendida mais à frente.
- Continua, Túndalo, estou aqui!
Afinal o rapaz luminoso era verdadeiro? E porque não se deixava ele ficar naquele pequeno troço da ponte, onde nada lhe doía?
- Essa névoa que te cobre, Túndalo, tem o tamanho de um passo. Se andares trás ou para a frente terás de sair dela. Queres viver para sempre dentro de um só passo?
Túndalo entendeu que não era possível. E se o anjo estava lá, a besta também devia estar. Decidiu-se a caminhar. Faltavam apenas alguns passos. Deu-os corajosamente até agarrar a mão que o esperava.


(Continua, claro, está-se mesmo a ver que não podia ficar por aqui. Mas espero que só precisem de mais um capítulo para chegar ao fim. Ah, e as imagens, claro, tirando a última, só podiam ser do meu velho amigo Jerónimo!...)

terça-feira, 24 de março de 2009

A VIAGEM. 1. Despertar

A caneca, finalmente vazia, caíu no chão lajeado e rolou com um estrondo metálico até ser detida por um pé imóvel. Daí a pouco tocariam a matinas em todas as torres e o silêncio cairia finalmente sobre as mesas e os bancos, entregando à força do sono os que tinham bebido e cantado e praguejado durante toda a noite. Desta vez Túndalo não sentia aquele torpor que anunciava a chegada do sono e por onde se deixava escorregar satisfeito. Tinha bebido como nos outros dias, tinha jogado e mentido e feito batota e cometido o pecado da carne e todos os outros que lhe alegravam a vida. Mas em vez da plenitude do prazer habitual, sentia uma dor indecifrável no peito, um aperto angustiante que não conhecia, uma espécie diferente de torpor, sem satisfação.


Talvez devesse esforçar-se por ir para casa em vez de se deixar ficar por ali até de manhã. Estendeu o braço esquerdo para se levantar com o auxílio de um pilar da parede mas o braço não quis ajudá-lo porque parecia atacado por um formigueiro.
Túndalo sentiu que alguma coisa não estava bem e alarmou-se. Esforçou-se por se levantar e sentiu uma forte picada no peito, do lado esquerdo. A ideia da morte surgiu-lhe como um relâmpago nos olhos e quis gritar por socorro. Mas todos os que tinham ficado na tarberna estavam completamente bêbados e dormiam profundamente com roncos sonoros que ninguém ouvia senão ele. Mendo, o taberneiro, fechara as portas e encerrara as portadas das janelas. Dormia, também ele, na sua enxerga na câmara ao fundo, e só voltaria a levantar-se perto da hora do meio dia. Não havia, portanto, quem lhe acorresse.

Túndalo quis gritar que não estava ainda na sua hora e que a morte não poderia levá-lo assim tão novo. Tinha vivido com prazer e não se tinha preparado para a morte. Contava fazê-lo quando fosse mais velho e não aceitaria que a morte o traísse desta maneira. Foi com este sentimento de surda revolta por tamanha injustiça que sentiu escurecer tudo à sua volta e deixar-se escorregar suavemente para o chão. Fechou os olhos e entregou-se ao inevitável. O corpo tornou-se leve, os vapores da cerveja despareceram e o pensamento tornou-se-lhe de repente frio e lúcido como nunca fora.

Túndalo abriu de novo os olhos, surpreendido por não estar morto. Mais surpreendido ainda ficou quando viu aquele rosto jovem, fresco e sorridente, debruçado sobre ele.
- Como entraste aqui, rapaz? Vai-te embora, isto não é lugar para ti!
O jovem riu com uma gargalhada cristalina como a água a ser soprada pelo vento.
- Enganas-te, Túndalo. Aqui é que é o meu lugar!
- Mas quem és tu? Que me queres?
O moço estendeu-lhe a mão a ajudou-o a levantar-se. E Túndalo foi capaz, porque a dor tinha desaparecido e os músculos estavam perfeitamente afinados e obedientes. Parecia-lhe, aliás, que nunca se sentira tão bem em toda a sua vida. Observou o rapaz, que parecia ter uns 15 ou 16 anos e notou a sua beleza invulgar. O cabelo era claro, a barba ainda não lhe despontara e os olhos pareciam feitos só de luz, sem nenhuma cor. Usava um vestido branco simples, cingido apenas por uma cinta e calçava umas sandálias de tiras como as de alguns monges.
Havia nele uma autoridade estranha e, sem saber porquê, Túndalo sentiu-se obrigado a obedecer-lhe.




(Continua...)



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Interrupção excessiva

Não sou de euforias óbvias ou anonimamente partilhadas.
Abomino importações transatlânticas.
Levámos tradições de atávico significado antropológico, como o valor catártico e purgante do excesso temporariamente admitido. O mundo às avessas. As pernas para o ar. A inspiração profunda que liberta para a aceitação das regras.
Agora vamos buscar os excessos industrializados e despidos de sentido, maquinais, repetitivos, banais.

Fugi.
Interrompi-me.
Larguei amarras em busca de outros excessos.

Excesso de distância.


Excesso de vento.

Excesso de voo.



Excesso de horizonte.


Excesso de luz.


Excesso de água.



Excesso de alma.



terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A Partilha


Desde que nos tornámos nautas do ciberespaço e que decidimos comunicar-nos com o mundo perfilhando um username com o qual podemos ser chamados por correio electrónico que nos habituámos a odiar o spam. Felizmente que a maior parte dos servidores já faz o favor de no-lo filtrar, tirando-o da nossa vista e poupando-nos algumas irritações.

Mas, pela parte que me toca, acho que o sistema está longe de ser perfeito porque ainda não consegue poupar-nos ao spam dos estados de alma dos amigos. Todos os dias, quando abro o correio, perco algum tempo a apagar sem ler mensagens reencaminhadas por eles.


A R., amiga de longa data, é uma adepta dos jornais on line e deve passar algumas horas por dia a consultá-los. Do que por lá encontra, envia-me todas as notícias sobre novas descobertas na área da saúde dos pequenos problemas. Se eu me desse ao trabalho de as ler, teria ficado informada, nos últimos meses, sobre técnicas inovadoras para desencravar unhas com laser, sobre o modo mais eficaz de tratar verrugas substituindo pomadas pelo muito mais barato WCPato, e sobre o nome da proteína cuja falta nos faz não gostar de hortaliças cor-de-laranja.

Mas aqui eu tive alguma culpa, confesso. Há um ano atrás, a R. andava preocupada com a fome no Terceiro Mundo. Farta de ser confrontada com fotografias de crianças africanas de barriga inchada e olhos esbugalhados a fitar-me cada vez que abria o correio, sugeri-lhe delicadamente que libertasse o espírito dos males da humanidade que não está na sua mão curar e que se preocupasse mais com as soluções simples do dia a dia (a R. chega atrasada a todo o lado, engana-se na estação de metro onde deve sair e não há semana em que não perca alguma coisa importante, como por exemplo as chaves de casa).

Depois temos a M., que viveu gloriosos momentos épicos empunhando cartazes nas recentes manifestações contra Maria de Lourdes Rodrigues e que reza o “Perdoa-me, Pai, porque pequei” sempre que se lembra de que um dia votou Sócrates. Já me reencaminhou 123 mensagens com caricaturas da Senhora (numa das quais fazia de bobo da corte socrática), mais 98 mensagens com anetodas que sugerem que Sócrates mais não é do que o nosso Bush. Já tentei explicar-lhe que as anedotas são pueris e que não me fazem rir mas não adiantou. Cada vez que clica no Send para reencaminhar mais uma, eriçam-se-lhe os pêlos dos braços de puro gozo.

Por fim, temos o F.. Está em crise conjugal, a mulher queixa-se de que ele não lhe deu o devido valor, nem apoio, nem companhia, nem prazer, nem nada e pediu o divórcio. Ofereci-lhe, é claro, o meu ombro amigo para desabafar as mágoas. Mas como os homens não gostam de que os vejamos em momentos de fragilidade e culpa assumidas, opta antes por enviar-me todos os dias daquelas apresentações em powerpoint de auto-ajuda: música de flauta em fundo, sequências de campos de flores ou rios correndos por entre montanhas e texto brasileiro cheio de erros de sintaxe dizendo que todos os dias devemos declarar que amamos os que amamos e que o trabalho nos distrai do que é realmente importante e que não adiemos estender a mão ou fazer uma festa agora, neste preciso momento, antes que seja tarde.

Bom... os amigos, suponho, são para isto mesmo, não é verdade? Para partilhar as dores e as preocupações. E para pacientemente apagar mensagens umas atrás das outras, mesmo que no meio da operação quotidiana se elimine por engano aquela mensagem mesmo importante de que estávamos à espera há três dias.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Back to Africa

Nunca gostei de frio. Sou uma alma de paisagens quentes com som de ondas ao fundo e estes dias gelados que nos têm perseguido produzem em mim o efeito de fuga.
Embrulho-me em cachecóis e recolho-me às lembranças de onde não havia frio. Lá longe na infância africana.
Quando os caranguejos ousavam fazer corridinhas pela beira da água, na Baía Fernão Veloso.


Era a minha praia preferida e, nesses tempos, as distâncias eram muito grandes mas venciam-se com facilidade. Duzentos quilómetros de avião (um pequeno Dakota enfeitado com cortinas de flores às pintinhas) e podia-se chegar ao mar aí pelas sete da manhã (o sol nascia às cinco).
Parecia que ele, o mar, estava lá só porque lhe tínhamos mandado dizer que íamos, tão perfeito era, tão incapaz de nos desiludir, como um dedo divino pousado sobre as nossas pálpebras.

A cidade ficava no interior, de prédios baixos e largas avenidas traçadas a régua e esquadro, como acontece sempre com as cidades novas, construídas de raíz para responderem a necessidades inesperadas. Era uma cidade quente, familiar e ajardinada. Dizem-me que agora já não é tanto, parece que não há muito ânimo para a paciência namoradeira que os jardins exigem.


Era a terceira cidade. Ao domingo, na feira do pau-preto, vendiam-se por uma "quinhenta" (cinco tostões) caixas, caixinhas, esculturas e cestas.



No horizonte recortava-se a Cabeça-do-Velho, aquela montanha azul ao fundo que se via de todas as janelas.



Antes tinha eu morado na segunda cidade. Se fechar os olhos, ainda consigo sentir o cheiro das acácias que bordavam os jardins da Ponta Gea. Também tive um, onde me perdia como se fosse uma floresta. Mas era porque eu era muito pequena então e tudo me parecia demasiado grande.

Às vezes viajava para a primeira cidade. Aquele ali, atrás da catedral, é o prédio Funchal, onde costumava ficar, algures numa daquelas janelas do sétimo andar.

Esta era uma cidade grande, a maior que eu conhecia nesses tempos, muito diferente da pequena Lisboa, onde tudo me pareceu estreito e velho, quando cheguei.


Mas o sítio mais bonito de todos era a Ilha.

De antigas casas portuguesas inesperadamente acomodadas em ruas tropicais.


E de candeeiros de esquina indiferentes ao sol, como se ali tivesse pousado um eterno Gama acabado de chegar do Bairro Alto.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Uma pedra politicamente incorrecta...

Desde que me conheço que me conheço pacifista. Vi de muito perto a guerra, conheço muito bem os guerreiros e nunca lhes vi senão sangue na espada, e o gosto do sangue e um olhar que atravessa a carne e o espírito em busca duma glória ferrugenta e baça. Nos últimos dias, sempre que ligo a televisão vejo um carrocel de cidades ocidentais onde multidões se manifestam contra a ofensiva hebraica sobre a faixa de Gaza. Os jornalistas vão enumerando as cidades e o número estimado de manifestantes. Não fazem comentários adicionais porque os jornalistas têm medo de serem acusados de muitas coisas que na Escola Superior de Comunicação Social lhes disseram que não podiam ser. Se não olharmos para as imagens, ficamos, portanto, com a ideia de que as populações anónimas, os cidadãos comuns (os políticos são outra raça, que joga o seu próprio jogo) de todo o ocidente democrático e cristão condenam a atitude bélica dos israelitas. Mas se olharmos para o écran não podemos deixar de notar que todos os manifestantes usam véu ou lenço islâmico e que as feições não são nada ocidentais. É evidente que os emigrantes islâmicos espalhados pela Europa têm todo o direito de se manifestar contra uma ofensiva militar contra o seu irmão palestiniano. Deus me livre de os censurar por isso!
Oiço dizer que o objectivo dos israelitas é destruir as estruturas militares que têm servido de base para o lançamento de mísseis palestinianos sobre Israel. E pergunto-me: porque não vi noticiado na televisão cada míssil que os palestinianos lançaram sobre Israel? Porque não vi, então, manifestações dos judeus espalhados por todo o ocidente contra os ataques militares dos seus irmãos israelitas? Pergunto-me também, a mim que sou pacifista, o que faria eu se o meu vizinho do lado todos os dias me atirasse pedras pela janela da sala e soubesse que a polícia não consegue fazê-lo parar com isso? Sim, o que faria eu? Talvez pensasse em quem terá atirado a primeira pedra.
E lá ia eu pela Antiguidade fora até ao quarto milénio antes de Cristo, quando a Palestina não era habitada nem por árabes nem por hebreus. Os donos da terra, seus primeiros habitantes, eram os cananeus, toda a gente sabe. Não que fossem muito diferentes, eram semitas como os árabes e os hebreus. Mas extinguiram-se depois da conquista da Palestina pelos hebreus. Já cá não estão para reivindicar nada e, se tivermos de procurar a primeira pedra, talvez ela seja a que serviu de fundação às primeiras casas dos reinos de Israel e depois à que começou a construção do templo de Salomão. A vida nunca lhes foi fácil. Foram dominados por assírios, caldeus, macedónios, egípcios e sírios. Os últimos foram os romanos e toda gente sabe como a história acabou: a destruição do Templo e a expulsão forçada dos judeus da terra que ocupavam há milhares anos, a sua Terra Prometida, rumo à diáspora, à existência envergonhada e perseguida no mundo dos cristãos que os marcaram para sempre com a culpa pela morte de Jesus. Com a terra aberta, foram chegando os árabes, que se instalaram. Salto por cima de muitos séculos, de bizantinos, turcos e cruzados. Durante a Primeira Guerra Mundial, o império britânico tentou captar as simpatias dos chefes árabes do Médio Oriente prometendo-lhes a independência em troca de ajuda na luta contra os turcos. Ao mesmo tempo, porém, os ingleses assinam a Declaração de Balfur, em que garantem aos judeus o seu regresso a casa: a criação de um estado hebraico na Palestina. Judeus de todo o mundo convergiram para a Palestina e começaram a juntar as pedras para a sua nova futura casa. No fim da Segunda Guerra, os Aliados estavam aborrecidos com os árabes, que tinham simpatizado demais com o Eixo, e estavam compungidos com o que se revelava do Holocausto. Ajudaram no que puderam os judeus a emigrarem para a Palestina e a edificarem o seu próprio país. Ficou combinado: em 1948 seriam criados dois estados autónomos, o da Palestina e o de Israel. Na data marcada, as tropas britânicas (que administravam o território) fizeram as malas e vieram-se embora. Os dois novos estados declararam ambos a sua independência e, para comemorar devidamente o evento, os países árabes desencadearam um ataque em massa contra Israel. Olha, será que encontrei a primeira pedra? É que depois disto nunca mais parou o «Bato-te porque tu me bateste!», vindo dos dois lados.


À partida, não gosto nem desgosto de nenhum povo em especial. Mas quando olho para o Médio Oriente, vejo um povo que construiu um país democrático e economicamente progressista das areias do deserto, sob a chuva de pedras do vizinho. E vejo outro povo que, apesar de ajudado por poderosos amigos árabes, imola os seus filhos sobre o altar das vítimas, monta o espectáculo da lamentação televisiva como se tivesse as mãos limpas e idolatra chefes corruptos cujas esposas e filhos vivem nos melhores hotéis de luxo do ocidente e se vestem de Chanel, como a senhora Arafat (paz à alma do seu corrupto marido!).
Não gosto de pedras que não deixam passar a luz, definitivamente não gosto. E não consigo deixar de pensar em todas estas coisas, sempre que assisto à abertura dos telejornais...