domingo, 17 de fevereiro de 2008

Prazeres liquefeitos

Flor de anis. Grão de café. Casca de canela. Raíz de gengibre. Damasco e chocolate. Limão, rosa e flor-de-laranjeira.


O Arnaldo aspirava longamente os aromas pensando que um dia ainda haveria de inventar um modo de os liquefazer para transportá-los sempre, guardados em frasquinhos de vidro.
Aos serões, Arnaldo de Vilanova discutia filosofia mística com o seu compatriota Raimundo Lúlio mas durante o dia dedicava-se à prática da medicina, tal como ela se fazia lá pelos anos 70 e 80 do 13º século. Antes de regressar à sua pátria aragonesa, estudou numa das mais famosas escolas de medicina da época, a de Montpellier. Também teve os seus sonhos de espiritualismo visionário porque também passou uns quantos serões com o famoso Joaquín de Fiore. Acabou até por ter alguns problemas com umas teorias demasiado excêntricas e, em 1299, chegou a ser preso em Paris por uns doutores da Sorbonne de vistas estreitas. Mas safou-se.
Um dia descobriu como poderia trazer sempre consigo os aromas preferidos e como poderia extrair das ervas curativas as suas propriedades. Fez os primeiros ensaios de destilação do álcool. Em 1311, naufragou junto a Génova, deixando-nos um legado inestimável: os licores.


Apurado o processo de fabrico, hoje temo-los para todos os gostos, alguns em frasquinhos tão bonitos que deixariam o Arnaldo encantado.

O mais português de todos:


O sensual:



O enganador Hpnotic: de aspecto leve e jovem, esconde uma bomba de vodka, cognac e frutas tropicais.

o adulto e requintado: nada como o café.


O barroco, feito com limões corsos:


O majestoso Chambord: o preferido de Luís XIV:

O muito antigo anisado:


O mediterrâneo e caseiro, de azeitona verde:


O infantil:

O campestre:


O café como se gosta nas Caraíbas:


O inesperado e redundante, de cerveja:

O clássico:


O medicinal e preferido do Arnaldo, de ervas:

O hilariante:


O clássico feminino, de menta:


O escatológico. Português, claro!


O clássico masculino, de whisky:


O preferido dos budistas, de gengibre:

O maternal:

O elegante, de laranja e chocolate :


O apolíneo, de pera williams :




De como a pera williams também pode ser lunar:

O violento mezcal, primo da tequila, é servido com uma larva de borboleta dentro da garrafa. Só mesmo para corajosos:



sábado, 9 de fevereiro de 2008

Acordada e Regressada


O Tempo, aquela rede por cujas malhas queremos escapar-nos, recorta-nos a vida. Mostra-nos constantemente os quadrados em que devemos correr pela sobrevivência, ganhar o pão com manteiga, pagar a dívida à espécie. Cada desenrolar da rede só tem 24 quadradinhos, quase todos já previamente etiquetados. Felizmente que uns sete ou oito estão reservados à experiência sublime - ainda que efémera - da escapadela pelas malhas dos quadrados. Aí as malhas são fofas como algodão doce, suaves e disparatadas, e deixam-nos escorregar e ficarmos a baloiçar-nos nelas.
Era onde eu estava até há pouco tempo.


Até que a Nnanna - querida amiga! -
preocupada com a minha excessiva sonolência, resolveu acordar-me, pedindo-me no final de A Pedra, delicada mas insistentemente, que regressasse.










Não foi nada fácil fazer-lhe a vontade!


Senti-me como uma nobre e ilustre personagem, afeita às maciezas da vida, que fosse por alguma partida do destino de repente obrigada a olhar de frente os duros contornos da realidade.









Foi uma coisa repentina.
Fiquei entalada num dos quadrados da rede.















Presa ainda entre o lá e o cá, indecisa sobre para que lado é que havia de saltar, hesitando em regressar e não regressar.
















É que a viagem por entre as malhas da rede tinha sido particularmente paradisíaca. Tinha tudo o que se pode desejar para uma vida feliz:












Espreitava para um dos lados e via a rede com as malhas sobrelotadas.
Do outro, continuava tudo azul flutuante.







Via o regresso pesado e cheio de agrestes exigências. Coisa mais para heróis.
















Mas fiz um grande esforço! Temperado com café forte que, pouco a pouco, me devolveu o sentido do dever.




Obrigada, Nnanna, por me recordares de que depende o encanto da vida!











Já me sinto outra, acordada e regressada para as laboriosas tarefas do dia-a-dia, para as alegrias da existência entre as malhas da colmeia.
Vai um potezinho de mel ?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A Pedra

Primeiro o silêncio. A espera.



Depois a queda.

Recta, invisível, cortante

da pedra.


Depois o nervo.

As vértebras dobradas.

O chão que estremece.

O grito.



Depois as lágrimas.
A luta. Os dedos e os braços.
Fios emaranhados.


De onde vinha o silêncio

a respiração.

onde ficou a pedr
a.

Aberta
Acorda


Regressa









quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

IN TABERNA




Quando estamos na taberna
não nos importamos com a sepultura,
mas atiramo-nos ao jogo,
sobre as quais sempre suamos.
O que acontece na taverna,
onde o dinheiro é o anfitrião,
se quiseres saber
ouve o que eu te falo.

Uns jogam, outros bebem,
outros se comportam indiscretamente.
Mas dos que se entregam ao jogo,
uns ficam nus,
outros vestem-se,
alguns se vestem com sacos.
Lá ninguém teme a morte,
Mas, por Baco, lançam os dados à sorte.

Primeiro pela conta do vinho,
do qual bebem os libertinos;
bebem de novo pelos cativos,
depois bebem três vezes pelos vivos,
quatro vezes por todos os cristãos,
cinco vezes pelos fiéis defuntos,
seis vezes pelas freiras infiéis,
sete vezes pelos ladrões.

Oito vezes pelos frades depravados,
nove vezes pelos monges dispersos,
dez vezes pelos navegantes,
onze vezes pelos discordantes,
doze vezes pelos penitentes,
treze vezes pelos viajantes.
Tanto pelo papa como pelo rei
bebem todos sem lei.

Bebe a dona da casa, bebe o dono,
bebe o soldado, bebe o clérigo,
bebe ele, bebe ela,
bebe o servo com a serva,
bebe o ágil, bebe o preguiçoso,
bebe o branco, bebe o negro,
bebe o persistente, bebe o instável,
bebe o rude, bebe o meigo.

Bebe o pobre, bebe o doente,
bebe o exilado e o desconhecido,
bebe o menino, bebe o velho,
bebe o bispo e o deão,
bebe a freira, bebe o frade,
bebe a avó, bebe a mãe,
bebe esta, bebe aquele,
bebem cem, bebem mil.

Pouco duram seis moedas
onde imoderadamente
todos bebem sem medida,
ainda que bebam com alegria.
Assim todos dizem mal de nós
e assim seremos pobres.
Que vão para o inferno os que nos censuram
e que seus nomes não sejam escritos com os dos justos.



Os goliardos diziam-se clérigos, que era a designação corrente dos estudantes universitários nos séculos XII e XIII, mesmo daqueles que nunca viriam realmente a tomar ordens. Alguns viviam até muito tarde essa doce condição de estudantes boémios, cultos (às vezes iam às aulas), divertidos, irónicos e devotados à vida alegre e despreocupada. Viviam de expedientes. Jogavam aos dados. Às vezes ganhavam, às vezes perdiam. Lembravam-se da Senhora Fortuna, que comanda a Roda (http://www.youtube.com/watch?v=nqw3KWb9bH4&feature=related ). Mas a maior parte das vezes preferiam esquecer quase tudo numa caneca de vinho. Quando voltavam a lembrar-se escreviam belos poemas, reencontrados em 1803, no Mosteiro beneditino de Beuren. A tradução para português não lhes faz justiça mas Carl Orff fez:
http://www.youtube.com/watch?v=JI8AYMF17pk&feature=related

domingo, 13 de janeiro de 2008

A PAIXÃO

Tenho estado em grave coita

por um cavaleiro que tive,

e quero que para sempre se saiba

como o amei excessivamente;

agora vejo que sou traída

porque não lhe dei o meu amor

e por isso tenho estado em grande angústia

no leito e quando estou vestida.

Quisera ter o meu cavaleiro

uma noite, nu nos meus braços

e que ele se tivera por ditoso

só que eu lhe fizesse de almofada;

pois estou mais enamorada

que Floris esteve de Brancaflor:

entrego-lhe o meu coração e o meu amor,

o meu juízo, os meus olhos e a minha vida.


Formoso amigo, amável e bom,

quando vos terei em meu poder?

oxalá pudesse dormir convosco uma noite

e dar-vos um beijo amoroso.

Sabei que grande desejo teria

de ter-vos no lugar do marido

desde que me tivésseis jurado

fazer quanto eu quisera.


A Condessa de Dia viveu na segunda metade do séc.XII. Foi a mais ilustre das trovadoras provençais. Há dúvidas quanto à sua exacta identidade mas uma tradição identifica-a com a esposa do Conde Guilherme II de Poitiers e explica que se apaixonou perdidamente pelo também trovador Raimbaut d’Aurenga, a quem teria dedicado as suas canções. Na Provença desse tempo, amar o marido era sinal de grande descortesia e de falta de elevação espiritual, pois a contratualidade e conveniência económica que o casamento envolve não poderia conviver com o sentimento nobre e desinteressado do verdadeiro amor. Por isso, a paixão dava-se e vivia-se sem receio, como coisa que só obedece às suas próprias regras.







domingo, 6 de janeiro de 2008

AL-MUTAMID


Solta a alegria! Que fique desatada!
Esquece a ânsia que rói o coração.
Tanta doença foi assim curada!
A vida é uma presa, vai-te a ela!
Pois é bem curta a sua duração.


E mesmo que tua vida acaso fosse
De mil anos plenos já composta
Mal se poderia dizer que fora longa.
Que seres triste não seja a tua aposta
Pois que o alaúde e fresco vinho
Te aguardam na beira do caminho.
Que os cuidados não sejam de ti donos
Se a taça for espada brilhante em tua mão.
Da sabedoria só colherás a turbação
Cravada no mais fundo do teu ser
É que, de entre todos, o mais sábio
É aquele que não cuida de saber.



Al-Mutamid nasceu em Beja em 1040 e morreu em Marrocos em 1095. Foi califa de Silves, onde se dedicou à poesia, à música e ao amor pelas belas mulheres. Evoca em muitos poemas os lugares daquela que foi a sua cidade do Al-Garhb preferida:

Ai quantas noites fiquei,
Lá no remanso do rio,
Nos jogos do amor
Com a da pulseira curva
Igual aos meandros da água
Enquanto o tempo passava..
E me servia de vinho:
O vinho do seu olhar
Às vezes o do seu copo
E outras vezes o da boca.
Tangia cordas de alaúde
E eis que eu estremecia
Como se estivesse ouvindo
Tendões de colos cortados.
Mas retirava o seu manto
Grácil detalhe mostrando:
Era ramo de salgueiro
Que abria o seu botão
Para ostentar a flor.


Por essa altura, a Península cristã, de façanhudos e analfabetos cavaleiros, estava longe da sua elevação artística e civilizacional...



quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O DEUS DAS PORTAS


Certos deuses guardam as entradas de costas voltadas para nós.




Ele não.
Bifronte, esguarda a paisagem de face virada para a frente e de face virada para trás.

Mostra-nos portas que se fecham secamente...



E portas fechadas com exuberância.


Saturno concedeu-lhe o dom da dupla ciência.

A do que já passou e a do que está para vir.




Diz-nos que, se estiverem fechadas, se abrem devagar.




E que certas coisas não podem ir na travessia.

É preciso deixá-las para trás.



Depois de atravessadas, mostra-nos a luz que se recorta na passagem.



Jano. Janeiro. Boas entradas.