domingo, 17 de agosto de 2008
Pedimos desculpa pela interrupção...
convencida - sim ! - de que seria possível vir de férias trazendo o Rodrigo debaixo do braço só porque tinha expendido 50 euros numa daquelas plaquinhas que dizem que nos põem a navegar na net num instante mesmo que estejamos no meio do Saara,
confesso a minha ingenuidade pela confiança nos anúncios da TV.
É mentira! Aquela coisa não nos liga à net sempre que queremos e como queremos! Deixo o conselho: não comprem aquelas placas qualquer que seja o dono da loja que as vende.
Escrevo esta mensagem num momento de Wi-Fi proporcionado pelo presidente do oásis do meu Saara.
Agradeço todos os comentários ao último post (sobretudo os da Maria Papoila e do Gonçalinho). Vou ter de fazer uma interrupção na história do Rodrigo mas prometo os restantes episódios logo que regresse à civilização.
Boas férias !
quinta-feira, 31 de julho de 2008
A Casa de Hércules. 2. «Não entrarás!»
Quando o Conde anunciou a sua filha a decisão de a enviar à corte, Lataba quisera dizer porque não. Mas não podia expor as suas razões. Não chegara a hora por que Ricardo esperava. Viera ele a Ceuta trazendo nos ouvidos as notícias da sua beleza, deixara ele o seu pequeno reino de Brapaquedo, onde o rei seu pai lhe consentira que partisse à aventura, em busca de fortes aliados. Ricardo chegara havia ainda poucos meses, servira Julião na guerra contra os mouros e a ninguém deixara saber a que varanda se encostava ao fim da tarde, quando Lataba se recolhia a repousar acompanhada apenas pela sua leal amiga Alquifa. Só ela testemunhara as promessas do jovem cavaleiro, que jurara servir o pai até que a recompensa merecesse ser a mão da filha.
Donzela sagaz, Alquifa! Cumprida da boa sensatez Deus deu às mulheres, coube-lhe nessa tarde tomar as mãos da amiga e mostrar-lhe como um pouco de espera em nada diminuiria os planos dos dois namorados. Foi ela que se encarregou de transmitir a Ricardo a notícia da partida da sua amada, esforçando-o a que preseverasse no serviço do Conde para que tão depressa quanto uma donzela leva a aprender a dançar pudesse oferecer-se-lhe como o esposo poderoso e nobre que dispensaria Lataba de permanecer em Toledo. Animada por esta esperança, a filha do Conde consentiu na partida, disposta a tudo fazer para ser à rainha Eylata a mais doce e agradável donzela da sua corte.
- Senhor – disse o primeiro dos anciãos, aproximando-se do trono – nós aqui somos vindos trazer-te esta chave, com que deves cumprir o teu dever de rei da Hispânia.
- Que chave ? – inquiriu Rodrigo, olhando-a sem entender.
- Esta – disse o ancião – é a chave do cadeado que te cumpre na casa de Hércules.
E vendo que o rei o não entendia, dispôs-se a contar-lhe como Hércules, Senhor da Grécia, conquistara e povoara, em tempos muito antigos, a Hispânia. Expulsanado os maus inimigos da terra, trouxera-lhe ele o nome de terra de bem, povoara-a de gentes calorosas e inclinadas à verdade. Depois, em grande segredo, construira sozinho uma casa em Toledo, fechando-a com um cadeado, e entregara a chave aos doze homens mais sábios do povo, dizendo: «Que ninguém abra nunca a porta desta casa!»
- ... e todos os reis depois juntaram a este cada um o seu cadeado. E partiu para a Grécia! E sabe, Senhor, que esta casa é tão subtil que não há quem saiba dizer-te como foi feita, porque é toda redonda como uma bola e de tal tamanho que se sobre ela atirares uma pedra não a verás cair do outro lado. E assenta somente em quatro grandes leões de ouro, de tal maravilha que não saberíamos hoje fazer outros iguais. E é toda coberta por pedras mármores cada uma de sua cor, tão pequenas que nenhuma é maior do que o punho de um homem e de tal feição ajuntadas que ninguém pode dizer onde começa uma e acaba a outra. Todas juntas figuram as mais nobres cavalarias de que ouviste falar. Não que lá tenham sido pintadas com tinta mas porque as próprias pedras nos contam as histórias. Não tem janela nenhuma mas tão só uma porta pequena, com letras entalhadas que dizem assim: «Eu proíbo que alguém, por muito ousado que seja, hoje ou amanhã, abra esta porta e mando a todos os reis que a defendam como eu defendi».
- E o que tem dentro essa casa? – perguntou Rodrigo.
- Ninguém sabe – disseram os anciãos – Porque todos os reis antes de ti cumpriram o mandado de Hércules. E hoje é a tua vez.
Rodrigo olhou pensativamente a chave acabada de forjar que lhe ofereciam. Por fim disse:
- Amanhã lá irei vê-la e logo saberei se é coisa em que haja de pôr o meu cadeado. Pois que casa tão bem guardada não pode ter dentro senão um grande tesouro ou um grande segredo. E se segredo é, eu o desvendarei e, se é tesouro, a mim pertence, que sou o rei!
Os velhos bem lhe disseram que não fizesse tal coisa mas antes seguisse o exemplo dos bons reis de Espanha. Rodrigo, porém, despediu-os com um gesto, sem mais conversa.
domingo, 27 de julho de 2008
A Casa de Hércules. 1. Rodrigo.
Depois de mais de um século de paz e progresso, o reino de Vitiza o Godo, começou a dar sinais de grande inquietação. Ficavam na memória dourada dos mitos as gloriosas batalhas com que os visigodos haviam avançado pela Hispânia, lançando dela fora os irmãos germânicos que os haviam precedido na conquista do mais apetecido extremo ocidental do império romano, rico de minério, de longas costas abundantes de peixe e de misteriosos e sagrados promontórios sobre o mar, a avistar terras que se estendiam para lá das águas do Mar do Meio da Terra e das do Mar Oceano, que Estrabão o Grego e Plínio o Velho descreviam como uma circular cintura de água em volta da Terra.
No reino de Vitiza, onde os seus dois filhos ainda crianças cresciam à espera da cadeira imperial paterna, creciam também os murmúrios clandestinos da ambição. Nas ruas estreitas de Toledo, os grandes senhores espreitavam-se uns aos outros, dividindo-se em dois bandos hostis e arranjando cada um modos doces de chamar à aba das suas capas os pequenos príncipes, quando soasse a hora da sucessão. E ainda mal Vitiza acabara de agonizar quando o mais velho dos meninos se viu resgatado por um dos bandos, que para ele reclamava o trono, e o mais novo foi encaminhado para o outro bando, que lhe reclamava igual direito. E sobre isto houve grande contenda.
O que então se seguiu de disputas e ameaças de guerra é história de todos os tempos, sempre que os homens desejam poder mais do que a sorte lhes destinou. E alguns nobres godos, que ainda traziam nas épicas lembranças do seu passado guerreiro o gosto das soluções justas, reuniram cortes e acordaram escolher de entre si aquele que, por boa fama de cavalaria e justiça e honra, tomasse o regimento do reino, criasse os filhos de Vitiza como pertencia à sua condição e lhes devolvesse o trono e a coroa logo que a sua maturidade despontasse.E acharam que havia um homem que, nobre e esforçado cavaleiro de muitas batalhas, de límpidos olhos, coração forte e destemida vontade, seria o melhor regedor que o reino poderia achar. O seu nome era Rodrigo. Unanimemente eleito, saíu Rodrigo do conselho investido da regência e conduziu-se ao palácio real, onde entrou levando pelo braço a sua esposa Eylata e aconchegando no seio os dois príncipes.
Confiantes, os Godos serenaram e depuseram as armas, que Rodrigo fez recolher e guardar numa sala fechada do palácio, proibindo terminantemente que outras novas fossem construídas. Decisão sensata, julgaram os cavaleiros, de senhor que ama a paz acima de todos os desamores. Na noite seguinte ao recolher das armas, Rodrigo enviou a casa dos anteriores partidos discordantes um corpo de cavaleiros armados, que silenciosamente mataram os pais e os filhos varões. De manhã, fez correr pregão nas ruas de Toledo, anunciando que os punidos haviam recusado entregar as armas e que, com a dureza necessária, se alcançara a pacificação do reino. Nos meses em frente, assistiu a Hispânia à mais firme onda de paz que se poderia esperar de um homem prudente. Todos os vassalos de Vitiza leais a seus filhos foram mortos ou desterrados. As suas esposas, filhas e filhos pequenos foram chamados à corte e recebidos condignamente, com as honras e bem-fazer devidos a quem nascera de alta condição. Os castelos que os vassalos de Vitiza assim deixavam desguarnecidos foram entregues a leais servidores de Rodrigo, até que nenhum homem ficou na Hispânia que de alta condição fosse que a não devesse à grada mercê do novo senhor.
À distante Ceuta as notícias chegavam tarde e levadas por mensageiros de Rodrigo, que garantiam estar o reino entregue à paz, depois de tomadas as medidas necessárias. Julião nada temia. Não podia ser substituído. Nenhum como ele alcançaria as mesmas alianças, devidas a laços de parentesco, que tinham até então garantido o entrave aos filhos de Ismael. Outro recado levavam ainda os mensageiros: Rodrigo chamava à corte a filha única do Conde Julião, Lataba, donzela de que por todo o lado se ouvia cantar maravilhas de graça e entendimento. Na corte – dizia Rodrigo – entre as nobres donzelas da sua esposa Eylata, a filha do Conde seria educada como princesa e ser-lhe-ia achado o esposo condigno, cristão e nobre, como ela não poderia achar em Ceuta, entre berberes e mouros. Julião apreciou o oferecimento. Coisa boa e proveitosa seria para a sua única filha, que sua esposa, a Condessa, criara com os desvelos de mãe mas longe da requintada cortesia que só em Toledo se poderia achar.sábado, 12 de julho de 2008
Ponto pé-de-flor
Entre o ponto Richelieu (a mestra dizia richelié) e o ponto cruz, ligaram-se-lhe no espírito as linhas que a levaram a prometer à mestra que não consentiria a homem nenhum, salvo ao marido, quando ele viesse, mais do que a cordial distância, amigável e de temperado convívio. Teria então perto de 13 anos e a costura daquela promessa fez-se-lhe com os pontos certinhos e apertados de quem já bordava até ponto de pérola. Era, portanto, preciso esperar.
Nas noites quentes de Julho, enquanto lavava a loiça do jantar, depois de os irmãos pequenos terem saído para brincar na rua com os miúdos da vizinhança, dava uma curta licença à fantasia. As mãos cheias de espuma enluvavam-se-lhe e estendia-as a um rapaz de capa escura que assomava à porta da cozinha. Lá fora, entre os risos dos miúdos, escutava o relinchar do cavalo que ele prendera à entrada. Não era bonito mas tinha o queixo quadrado e os cabelos negros e um olhar difícil de entender mas onde ela se revia como num espelho.

domingo, 22 de junho de 2008
Figos depois da queda
Clarissa explicava:
No meio do jardim havia uma figueira de S.João mas que dava figos todo o ano, gordos e roxos, a deitar mel em fio pelo olho quando caíam ao chão de maduros. As varinhas dos vedores, caçadores de rios, são ramos daquela figueira, que Eva trouxe do jardim quando teve de abalar por ter decidido acabar de uma vez com aquele desperdício dos figos.
Nosso Senhor não gostou que os tivessem comido e disse ao Adão e à Eva que, já que era assim, que fossem comer todos os figos que quisessem mas fora do jardim onde os tinham à mão de semear. Tinham que ir à procura deles numa terra onde os rios se escondessem e fosse preciso caçá-los.

Sentados no poial, Maria e Luciana ouviam a história de Clarissa, os punhos e os cotovelos escorrendo sumo de melancia comida às talhadas e os olhos muito abertos:
segunda-feira, 9 de junho de 2008
10 de Junho
Vejo vir dalém branca luz doutro dia. Santa Maria val, que pior do que estar em prisão é do cárcere nos darem a ver a luz do dia!
Que se de escuridão fosse todo o tempo que aqui temos, memória da vida não nos seria consentida, por esquecer que havíamos a luz do sol . Assim esta quadra branca que entra nestas pedras negras faz mais negro o meu vestido, traz aos meus olhos estas mãos apodrecendo como rosas murchas e lentas.
Ai, minhas mãos presas de cadeias! Ai mesquinha, minhas mãos que já doutras foram tomadas !

Ai, Fernão, que de ti me aparta esta luz que vejo coada sem ter pecado para tal!
Vinhas tu ao meu castelo nas noites em que o luar se levantava nos meus lençóis e o canto do rouxinol anunciava o trote da tua montada... D.Anrique não tomava do meu sono mais cuidado que eu tomava de suas idas a Astorga.
E ele, o que aqui me tem, me teve de aleivosa por teus beijos!
Ah, Fernão, que pouco ele sabe doutras coisas que não sejam lides e poderes! Eu juro, juro que lhe dei com estas mãos que ele amarra outras lições mais doces!
A minha mãe me dizia «as carnes do filho se britam em tempo que se britarem as da que as fez».
Meu filho, eu te trouxe a esta luz com que me castigas!
Este seio vazio te deu sangue para verteres com mouros, este sangue seco nos ferros te deu o peito esforçado nas lutas.
Filho, néscio e rude, queres matar a tua carne?
Cuidas tu, Afonso, que levas da vida mor cousa em teres tua a terra de meu pai? Também eu cuidava que tê-la minha era como ter do meu nome a lembrança do que foi antes. Não queria roubar-ta, que após de minha tua seria, mas te digo que esta vida é curta, neste reino longe do Senhor, e noutra teremos mor bem que ora não é logrado. E se para o que inda vive não for toda a honra do que inda é seu, como saberemos nós qual é a hora da morte? E logo que temos os filhos senhores de cavalo montar, logo querem que o cavalo seja o nosso?
Ah, Afonso, o teu reino será grande, os teus castelos lançarão estandarte por outros mundos fora! Crê no que os meus olhos quase cegos estão vendo, que eles enxergam melhor a tua cegueira.
Terras terão os teus filhos que ora não foram inda inventadas. E o Senhor lhes dará benção de largada e lhes dará missão de alargar.
Por isso que há-de vir, Afonso, os que virão hão-de perdoar o teu orgulho e bendizer a tua ambição. Mas eu, que ora me vou morrendo por elas, as maldigo como é maldito todo o acto de força!
Fernão, meu amado, estou eu falando com ele não sei porquê.
Bem sei eu que inda que aqui estivesse me não escutaria. Mas me parece a mim que lhe falo quando o tinha no regaço e com meus braços o trazia defendido dos males do mundo. E cuido eu, sandia, que o sangue que se me vai dos pulsos ferrados inda é o que o tinha preso a mim!... Esqueço que tal corda a arrancou ele com suas mãos, que mais fortes são que as minhas e nenhuma protecção mais buscam senão no escudo de guerra que lhe deu seu pai.
D.Anrique lhe deu tudo. A terra que meu pai me dera de arras lha deu como se sua fosse, a espada com que ora fere os mouros lha deu Anrique e também o ódio com que os fere. Lhe deu seu pai o cálice da guerra, o cheiro do sangue e o estrondo do ferro nas lides, porque al não tinha para dar.
Não o amei eu. Como poderia, Fernão, amar homem a quem fora dada por feitos de guerra? Bem sonhara meus sonhos de donzela quando Anrique me levou de manhã no seu cavalo e me deixou de manhã deitada em sangue, antes que se fosse à caça.
Que grão pecado fiz eu, Senhor?
Ergueu-se o sol, estará chegando a Primavera, oiço cantar cotovias.Lembram-me a água das fontes do castelo de meu pai, que nunca mais verei...
Malditas águas que te geraram, maldita luz que te mostrei, Afonso!
Pois tua lei é de sangue e a tua mão é de força e a tua lembrança mais curta do que te ensinei, eu te maldigo e te digo que como a minha carne quebraste com ferros, tu saberás que a carne do filho é a mesma de sua mãe!
E pois com ferro me tens, o ferro te quebrará antes que cumpras teus dias!
Assim te maldigo, Afonso, meu filho e meu amor!
sábado, 7 de junho de 2008
Esperar agarrada ao chão
Muito alto para subir...
Firmo-me nas raízes tenras e deito os olhos lá para cima.
Que bem me ficavam as folhas lá no alto, onde dá o vento ao fim da tarde!
Levanto os ramos, à espera do sol.
Não pode demorar, que eu já fiz a minha parte.







