quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Play it (again), Sam!

Algumas imagens, algumas músicas, algumas histórias, algumas palavras, ganham um lugar na nossa memória só possível porque não nos cansamos delas. Vamos buscá-las muitas vezes para cantar, olhar de novo, repetir e representar. Há aqueles momentos de decisivas separações que nos doem menos porque entramos no papel da rapariga a braços com ideais que se despede num aeroporto cinzento de uma noite enevoada. A kiss is just a Kiss... nada de mais.

O seu rosto acompanha-nos
os sorrisos.
Ainda não é Outono nem hora de dedilhar sonatas ao piano.
O seu rosto acompanha-nos os momentos de fogueira, de nos lançarmos às chamas como Joanas convictas.

Temo-la tão nossa que não queremos saber de onde veio.
Sobre o que sofreu ou não, o que amou ou foi desamada nunca saberemos verdades. Era uma mulher forte. Das que sofrem sem alarido. Das que regressam
depois dos prantos privados. Das que se levantam sozinhas. Das que sorriem de novo, olham-nos de olhos enxutos e pousam a mão no ombro do pianista:
Play it again, Sam!




quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Peixe Voador

Diziam-lhe: «Nunca mais tens juízo!»
Fingia que não ouvia e sentava-se num canto a olhar para cima, para onde o sol produzia mil cores brilhantes, a calcular mentalmente quantas vezes por minuto seria preciso bater as asas para voar de uma árvore a outra.

Não percebia muito bem o que queriam dele. Qual o juízo que devia ter? Todos pareciam ver perfeitamente o caminho que seguiam, traçado por rectas e curvas invisíveis mas que estavam lá, levando-os a um incessante rodopio cheio de significado. Ele, pelo contrário, tinha dificuldade em escolher o caminho. Tudo lhe parecia mais ou menos indiferente, mais ou menos igual.

Gostava de certos pensamentos que lhe ocorriam sem querer. Parecia que a sua cabeça às vezes trabalhava sozinha e ficava ligada incansavelmente. Nessas alturas nunca ouvia o que lhe diziam e esquecia-se das coisas que era preciso fazer, como dizer «Bom dia» quando se cruzava com alguém ou sorrir adequadamente para demonstrar satisfação ou olhar os outros nos olhos para lhes assegurar que estava tudo bem. Era então que costumavam achá-lo estranho, ficavam a olhá-lo calados e embaraçados sem saber o que dizer.



Percebeu muito cedo que embaraçava os outros. Por isso, com o tempo, habituou-se a pedir desculpa e a tornar-se explícito: «Não o ofendi, pois não?», perguntava. Assim desarmava-os e desembaraçava as situações complicadas. Abriam-se sorrisos que pareciam indicar que aquela pergunta também não era muito adequada mas pelo menos era tranquilizante.

De qualquer modo já tinha desistido há muito de perceber o que era ou não adequado.


Ouvira um dia baixinho uma coisa quando falavam dele: «Síndrome de Asperger». Percebeu que essas palavras deviam ter muita importância mas, mais uma vez, preferiu fingir que não tinha ouvido e pôs-se a calcular quantos metros mediria o prédio mais alto que avistava da janela.




Um dia iria voar. Só não sabia ainda como.

domingo, 4 de novembro de 2007

Como eles crescem

Nunca sabemos se eles realmente cresceram até ao dia em que os vemos fazer bem uma coisa que não lhes ensinámos.

Recordamos então o dia longínquo da infância deles em que, no Natal, lhes oferecemos uma bateria de brincar.

Sorrimos com nostalgia à lembrança do gosto com que, pelos meses fora, se entretiveram a destrui-la com carinho, batendo nos tambores até os romper, fazendo soar os pratos até nos enlouquecerem. Até só sobrarem as baquetas.

Ainda conseguimos dizer que idade eles tinham no dia em que, por fim, às escondidas, deitámos para o lixo o que restava da bateria. Com algum alívio, e jurando nunca mais lhes oferecer brinquedos tão volumosos e barulhentos.

E depois... um dia... cresceram, voltaram a levar para casa um par de baquetas e levam-nos a ir vê-los actuar na Aula Magna.



terça-feira, 30 de outubro de 2007

Ilhas, Faróis e Pecados

Pecado é...
... cortar a mão que se estende
... derrubar o farol que ilumina
... arrancar as raízes às ilhas.


domingo, 28 de outubro de 2007

CANDEEIRO DE ESQUINA



Quando acordou, perto da hora do almoço, lembrou-se de que era sábado e as calças brancas tinham ficado para vincar em casa da Maria da Graça. Boa rapariga, a Graça, se não fosse a ajuda dela... Desde que a mãe morrera nunca mais tivera quem lhe vincasse as calças e lhe fritasse as pataniscas da mesma maneira. Não queria agora pensar nisso porque não era ainda sem dor que sentia a sombra da mãe a acompanhar-lhe os passos na casita de quarto-e-sala em que haviam vivido toda a vida. Em sua lembrança continuava a renovar de cravos brancos o pequeno altar da Senhora da Saúde em cima da cómoda do quarto, para o qual se mudara ao fim de muitos anos a dormir no divã da sala. Na cama que fora da mãe e onde agora acordava todos os dias, sentia-se abraçado e em paz, como no dia muito distante da sua infância em que vira o pai sair para sempre pela porta da entrada.
Fez a barba com esmero, pendurou ao pescoço a grossa corrente de ouro com os amuletos preferidos, e rematou em abundância com o after shave que comprara em promoção na mercearia do vizinho Américo. Olhou-se ao espelho. Talvez já não se pudesse dizer facilmente que fora o rapaz mais atrevido do bairro, e bem-parecido, e disputado pelas moças porque sabia segredar-lhes aos ouvidos melhor do que os outros. Os anos tinham passado quase sem dar por isso e as noites bem regadas traziam com a casa dos sessenta as suas indeléveis marcas. Mas continuava a pensar nos detalhes da aparência, na camisa de riscas com colarinho branco engomado (ai a Graça!...), no colete azul e no risco irrepreensível do cabelo, que se mantivera inesperadamente farto. Não era como os rapazes novos, de calças de ganga esfarrapadas e t-shirt (no seu tempo chamava-se blusa...) desbotada.
Saíu de casa confiante, cumprimentou a Rosa Maria com a galhardia do costume, atirando ao ar um dos seus melhores piropos, que a fez encolher os ombros e sorrir. O dia não era para pressas, por isso encaminhou-se para a Rua do Vigário, a pensar na conversa agradável que gastaria devagar na tasca do Zé das Febras com outros rapazes do seu tempo. Se fosse há uns anos, seria de outra maneira. Nunca lhe faltara ao sábado uma moça para levar pelo braço a ver as montras da baixa e a marcar lugar na pensão Moderna (que a mãe não transigia nessas coisas!). Agora, os tempos eram outros e sabia bem que não podia ir além da sua colecção de piropos, a melhor do bairro! Até podia ganhar um concurso se fizessem um na televisão!
Às vezes tinha uma certa pena de não ter casado, de não ter criado uma família, netos que lhe enfeitassem os últimos invernos. Deixara partir, há muito tempo atrás, a Ana Maria, com um filho seu na barriga... Nunca mais soubera nada dela...
Pela segunda vez nesse dia, afastou os pensamentos tristes. Tinha outras coisas que lhe enchiam a alma. Nem tudo na vida são esposas e filhos.
Esgotou a conversa da tarde tão esquecido de tristezas que, quando deu por isso, anoitecia. Voltou à sua rua, a bater à porta da Graça, e recebeu nos braços as calças brancas e vincadas. Depois de vestidas e de novo na rua, sentiu-se verdadeiramente feliz.
De mãos nos bolsos, trauteando baixinho, dirigiu-se para a rua de todas as noites. Era ali que vertia os suspiros para os transformar em ais sentidos que partiam como setas ao coração do público. Ali, no Candeeiro da Esquina. Já podia ouvir à entrada os acordes das guitarras. Cantaria a sua série de três fados. Encheu o peito e entrou. Ali estava a sua paixão. As luzes baixas, o povo atento, as raparigas de xaile traçado, o lugar em branco entre os guitarristas, reservado para ele. Ali sentia-se rei, com poder de fazer chorar ou sorrir, de despertar a saudade e encantar os namorados.
Relanceou o olhar pelas mesas. Havia gente nova, que nunca tinha visto. Um grupo que não era do bairro, gente com ar de fina, já todos um pouco tocados do bom tinto da casa. Público novo era sempre bom!
O Eduardo, o mestre de cerimónias, chegou-se aos dois candeeiros vermelhos que, como balizas, reservavam o lugar dos artistas e anunciou-o:
- E agora, meus amigos, silêncio, por favor! Na minha presença e na vossa... Armando Fadista!
Era a sua deixa. Ergueu o peito, fechou os olhos, ombros para trás, e atacou o fado da igreja de Santo Estêvão com a alma toda.
Nem três versos o deixaram cantar antes de começarem os murmúrios. O que é que se passava? Abriu os olhos e viu o grupo de visitantes finos em alegre troça. Riam-se dele! Não acusou o toque e continuou a cantar. Os nervos, porém, descompassaram-lhe a voz. Nunca tal lhe tinha acontecido! Riam-se de quê? Como é que não respeitavam o sagrado silêncio do fado?! Alguns gritos soaram claros: «Já chega!», «Venha outro!», «Cantas mal!». Achavam que cantava mal! Ele, Armando Fadista, filho da Maria Eugénia, que fora, no seu tempo, a melhor cantadeira de Alfama! Como se atreviam!? Bonecos apalhaçados, sabiam o quê do Fado?
As gargalhadas ouviam-se na sala. Armando sentiu a raiva concentrar-se-lhe na garganta e transformar-se num balão de água prestes a explodir-lhe nos olhos. Acabou o fado com custo e teve coragem para os encarar de frente:
- Eu quando não gosto aplaudo à mesma! Podem não gostar mas respeitar!
E saíu, muito direito, o corpo franzino aprumado, apesar das pernas bambas a fazerem perigar a rectidão do vinco da Graça!
Cá fora encostou-se por momentos ao candeeiro que marcava a esquina do restaurante. Não deixaria as lágrimas cair! Pediu ajuda às pedras ásperas da calçada e encaminhou-se para a sua cama, onde os braços da mãe, feitos de sombra e amor, o embalaram.




quinta-feira, 25 de outubro de 2007

METÁFORAS





Paixões são uvas maduras,
vêm de onde outras costumam vir.
Redondas de luz, doces, breves e agudas.





Razões são peças na mão,
cartolinas coloridas, jogo da glória, do ganso,
da arte da convicção.


Sonhos são paredes brancas
que guardam do frio e da chuva,
cobertas de telhado quente.



Há escadas, caminhos, degraus
que acolhem os regressos
às paixões inesperadas.



Há razões que se calam,
sinuosamente reflectidas
nos armários fechados da memória.


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

A CASA E O RIO. Terceiro Andamento.

Um ramo de lírios roxos, tia Nina! Como tu gostavas de lírios! Aqui tens, sobre o mármore liso do teu rosto! Usavas seda azul antes, muito antes de haver manhãs claras e frias como esta. E o teu rosto era outro, como um regaço doce.
Não há ninguém por aqui. Até para visitar os mortos parece ser necessário escolher bem as horas. E, no entanto, é bem certo que não há tempo por aqui, tia Nina, e que a solidão te deve atormentar. Ninguém menciona o teu nome, ninguém se lembra de ti. Como é fácil perder a memória! A Laura visita-me sempre e eu fico à espera que ela me dê notícias tuas, não sei bem porquê, como se fosse uma obrigação que ela não cumpre. Talvez porque ela ficou na nossa casa e me pareça sempre provável que ela encon­tre, caído atrás da senhorinha de damasco anil, o dedal de prata que tu perdeste há tanto tempo. Ou penso que ela me vai dizer: "Sabes, ontem fiz biscoitos de natas por aquela receita da tia Nina!"
Mas a Laura acredita que eu estou louca... Fala-me como se eu fosse criança. E por vezes quase gostava de ser, sabes, tia Nina, como quando eu era bem pequena e tu ainda eras livre e alegre e vivias connosco e as minhas irmãs ainda não tinham nascido. Só eu me posso lembrar desse tempo, nenhuma delas se recorda de ti como um pássaro azul à espera da Primavera. Rias, brincavas comigo e por vezes ficavas séria, como se algo de verdadei­ramente importante se fosse decidindo em ti. A mamã chamava-te Nini, nome um pouco ridículo se não fosse a ternura que carregava. Ternura igual só a de Rodrigo que te vira crescer. Às vezes, quando me traz o chá ou me lembra as horas para que eu vá dormir, tenho vontade de lhe perguntar ou de lhe contar coisas sobre ti. Mas vejo-o tão velho, com passos tão cansados e olhos tão tristes que nada digo. Perdeu as suas duas meninas. Primeiro a mamã e agora tu.
O teu rosto é macio mesmo assim. A terra aqui tem um cheiro acre a molhado e profundo que impressiona. Faz pensar que a terra tem uma alma grande e misteriosa, que assusta e atrai. Por vezes, quando venho e me sento perto de ti e me esqueço das horas, julgo ouvir muitos e variados murmúrios, indistintos. Como se esta terra toda, carregada de memória e vozes, se levantasse a falar e, não alcançando o seu esforço, se deixasse logo após cair na sua paz. Não posso falar de tal coisa à Laura! Pensa que eu estou louca só porque às vezes me esqueço das horas ou me distraio. Pobre Laura! Como sofre naquele casarão! Vejo nos seus olhos que me vem visitar porque as paredes a atormentam e gostaria de fugir e descansar. Pobre Laura!
Lembras-te, tia Nina, quando a Laura nasceu todos ficámos tão felizes! Eu não entendia bem que se tratava de outra como eu, que viria a correr e brincar e conversar, achava aquela criatura tão adorável como as bonecas de porcelana que se sabe não serem verdadeiras e se tem medo de partir. Mas tu, tia Nina, eras tão jovem e passavas muito tempo com ela ao colo, canta­vas e querias sempre vesti-la e despi-la, como se de facto fosse uma bone­ca. A Laura foi sempre a mais corajosa de todas nós. Foi sempre a que proclamou os direitos de todas, a que comandou as brincadeiras e a que tinha razão. Foi certamente por coragem que quis ficar no casarão que a tortura e nunca me diz, quando vem à casa do moinho visitar-me, nunca me diz: "Estou tão triste!", ou "Deixa-me vir para aqui!", nunca chora nem grita, porque a Laura sempre foi corajosa. Lembras-te quando queria acusar-se pelas nossas traquinices? Lembras-te quando batia nos rapazes que lhe levantavam as saias? Pobre Laura!
Suspeito que sente a falta da Edna. Não que ela o diga! Mas no outro dia encontrou por acaso na casa do moinho um velho xaile dela e olhou-o com tanta tristeza e agarrou-o como se tivesse necessidade de o levar. Mas logo depois o largou, como se se achasse ridícula e foi-se embora depressa. É que a Edna nunca mandou notícias!
Vem além uma mulher, tia Nina, felizmente não vem para perto. Veste toda de preto, luto recente, traz margaridas. O conjunto tem um ar alegre, como o cantar de um melro que avança de ramo em ramo. A Edna sempre viveu num mundo à parte do nosso. Nunca estava satisfeita, nunca sabia bem o que queria. Desde que tu a ensinaste a tocar, o piano é que a conhecia bem. Dela esperávamos sempre qualquer coisa, porque a Edna não falava como nós, não brincava como nós. Talvez por isso tu a protegias mais, como se fosse de todas a mais vulnerável. Podia passar dias inteiros sem falar, como se nada existisse à sua volta. Excepto, claro, o piano. Mas agora que a solidão é verdadeira, a Edna deve sofrer mais que qualquer uma. Porque ela tem uma capacidade especial para sofrer mais do que os outros. Como quando se deu o acidente, lembras-te, tia Nina? Ela não tinha mais do que cinco anos, talvez nem entendesse completamente o que significavam os corpos do pai e da mãe imóveis como se dormissem e todavia passou uma semana sem falar e, mesmo depois de alguns anos, se se falava no que acon­tecera, a Edna nunca participava na conversa, como se carregasse aquela dor encerrada e viva para sempre. Por isso partiu. Só a distância a faz crer no esquecimento da tua partida, tia Nina! E três anos lá vão já.
Por vezes fico espantada como três anos pode ser tanto tempo. É como se eu sempre tivesse vivido na casa do moinho. Como se as paredes meio arruinadas sempre me tivessem defendido. Porque quando eu morava no casarão, e a Laura, a Edna e tu, Verlanda era outra, diferente e jovem. Capaz de amar...
Amar como qualquer outra.
Tia Nina, o sol começa a levantar-se, faz calor aqui. Deves estar em paz. É tão sereno este teu lugar, tão luminoso! Como tu quando rias no casarão e contudo não eras feliz. Jovem e encerrada, isso é que tu eras. Porque nós, sozinhas, precisávamos de ti. Porque era preciso educar as sobrinhas. Porque a mamã te tinha educado, porque, porque. Rias com tantos porques! E contudo amavas-nos na mesma. O teu vestido azul tornou-se cinza, era mais discreto e tu já tinhas pouco mais de trinta anos. Nessa idade e solteira já não fica bem chamar a atenção. Mas eras tão linda, mesmo assim! Quando ele chegou, ficou com os olhos em ti como numa fonte d'água.
Oxalá chova para os lírios não parecerem murchos...
Nessa noite ao jantar puseste no vestido um pequeno lírio branco. Mas nessa altura cada uma sozinha já então começara o inevitável. Eras linda, tia Nina! A Edna era interessante, com os olhos sombreados de silêncio, mas não tinha a tua clareza. A Laura era inteligente, conversava com graça, mas não tinha a tua suavidade. E eu, eu era grande demais, não sabia o que fazer com as mãos, o vestido não me assentava bem e tu só tinhas olhos para ele. Era belo como dizem que os marinheiros costumam ser e sorria. Escutava em silêncio a música de Edna, conversava com os poetas da Laura e sorria-me. Para ti estendia às vezes a mão, quando pensava que nós não olhávamos.
Tudo mudava no casarão. Já não havia serões em que tu contavas histórias da Princesa de Hera e nós três escutávamos, deitadas sobre a saia do teu vestido. O teu vestido mudava todos os dias e ele parecia cada vez mais belo. A Edna contava-lhe não sabíamos o quê que nunca nos contara. A Laura chorava como nunca tinha chorado. E eu desejava que a mão dele tocasse o meu cabelo e via os lábios dele sobre mim.
Querias partir, tia Nina. Nós adivinhávamos que ias partir. O silêncio instalava-se entre nós e entendemos então que ele partiria e tudo morreria em nós como se nunca tivéssemos nascido.
Arrefece. Tenho frio. Este teu leito de mármore é tão difícil!
Quando veio a tempestade e ele andava no rio, tu disseste que ele não conhecia os pegos e que o Rodrigo devia ir buscá-lo. Mas o Rodrigo não estava e fomos todas, saber onde andava pescando. Tu foste rio acima e nós vínhamos a caminho da casa do moinho, onde o rio se revolta para dar força à azenha. Chovia e o céu era tão negro como se Deus quisesse escrever nele com fogo. E eu vi-o. O rio enchera e ele esforçava-se por alcançar terra firme. Toda a terra se empapava em água. A cana e os fios da pesca dificultavam- lhe os movimentos. Edna gritou e ele ficou feliz por nos ver.
Vem vindo agora gente. Não podemos estar sozinhas, tia Nina! Nunca mais poderemos estar sozinhas.
De longe apontei-lhe o caminho. Como nós todas conhecíamos todos os caminhos! Na casa da azenha brincávamos no Verão. Nem uma palavra da Laura ou da Edna, nem um olhar ou um aceno que dissessem não, esse é o pior caminho.
Estávamos geladas da chuva e da tormenta. O vento uivava e tudo em nossa volta parecia caminhar para um turbilhão definitivo. Com um estrondo, a velha azenha há tanto imóvel começou a girar com a força da água e parecia louca, como se mil ventos a empurrassem, girava, girava.
Tudo parecia um inferno quando tu chegaste, desvairada, pálida, desfeita. Segurámos-te com todas as nossas forças mas o vestido azul que volta­ras a pôr rasgou-se-nos nas mãos e tu voaste como um pássaro ferido para o pego por onde ele partia. Tu partiste, tia Nina!

Tu partiste! Tu partiste.