
Depois de tratado o assunto que nos reuniu, o Dr.Jorge pendeu para a melancolia e a conversa derivou para as enorme dificuldades que os editores têm em Portugal para subsistir e para prestar um alto serviço à nação. Conhecedora desse fado, resolvi mostrar compreensão e ir assentindo com a cabeça. Que as boas gráficas são caras, que as distribuidoras levam quase 50% dos custos, que as feiras de divulgação exigem um investimento pesado... E tudo para quê? Para os portugueses não comprarem livros! Para os estudantes lerem nas miseráveis fotocópias que depois vão para o lixo! E que este país não tem a cultura do livro! E que os professores são os primeiros a emprestar os seus livros para serem fotocopiados! E agora até na internet há livros digitalizados! Assim como é que os pobres editores hão-de sobreviver?!? E pousava os olhos com tristeza na capa de uma das suas últimas publicações...
«Claro!, claro!», fui-lhe dizendo, cheia de caridade e balançando a cabeça, «Olhe, Dr. Jorge, deixe lá, pode ser que o sacrifício seja aceite para desconto na remissão dos seus pecados!...». Sorriu com a minha compreensão e afagou a capa do livro, em cuja contracapa se viam claramente os logótipos das duas instituições culturais que tinham financiado a publicação.
Despedimo-nos cordialmente e saí para a rua. Não resisti a passar a mão terna e caridosa sobre a porta do carro de alta cilindrada do Dr.Jorge, estacionado à porta, com os seus estofos em couro preto a condizer com os do escritório.

Fotos: A.M.Pinto da Silva e Jea