segunda-feira, 7 de abril de 2008

O nome das margaridas

Mudar de nome teve sempre um evidente poder de sedução. Pode-se mudar também de personalidade, recriar aquilo que parecia irreversivelmente criado ou adequar o nome à verdadeira personalidade, quando se pensa que aquele que escolheram por nós não exprime realmente aquilo que somos. A mudança de nome supõe que acreditamos na existência de uma ligação forte entre aquilo que somos e o nome que usamos. Se o mudamos, era porque não nos servia e achamos que sabemos quem somos.

A Margarida tinha todas as razões para ser feliz. Menina de nobres famílias, educada com esmero e dotada de invejável beleza. Foi-lhe escolhido um noivo a condizer e marcado o casamento. Margarida dispôs-se a casar como todas as meninas da sua idade e condição. Não havia muitas alternativas. Era o casamento ou o convento. As bodas foram preparadas com o fausto adequado à nobreza das famílias.


Passa-se isto no séc.III e, nessa época de final da Antiguidade, os costumes eram um pouco bizarros. Erguia-se um enorme leito nupcial, profusamente engalanado e devidamente encortinado, no local da boda e os convidados festejavam alegremente a perda da virgindade da noiva, depois de terem conduzido os noivos ao leito e de os terem deixado lá dentro a sós.



Assim foi feito com a Margarida. Bela e enfeitada, foi conduzida com o noivo ao tálamo nupcial. Mas aí parece que resolveu decidir ela a sua vida: fugiu antes que houvesse consumação. Percebendo que seria perseguida pelas duas famílias e obrigada a cumprir as suas obrigações de esposa, pensou num modo de encontrar a paz vivendo sem ser forçada a fazer o que não queria. Por isso, cortou o cabelo, vestiu-se de homem e foi procurar um mosteiro de monges onde pediu acolhimento. O nome que deu foi Pelágio.



Com o tempo, tornou-se o melhor e mais virtuoso monge do mosteiro e tantas qualidades suas foram apreciadas que foi eleito abade. Perto havia um outro mosteiro, feminino, que estava também sob a sua gestão e responsabilidade. Um dia, uma das monjas desse mosteiro apareceu grávida e, com medo de confessar que tinha pecado com um qualquer, disse que tinha sido forçada pelo abade Pelágio, pai do seu filho. Pelágio caíu em desgraça. Foi expulso do mosteiro e condenado a fazer penitência pelo resto da vida numa caverna das montanhas.


Uma vez por mês, um dos monges trazia-lhe um pão. Não protestou a sua inocência. Viveu aqueles anos em busca de outras dimensões, mais profundas, da existência. Quando pressentiu que morreria em breve, escreveu um bilhete onde pedia que o seu corpo não fosse lavado nem vestido por mãos masculinas e sim femininas. Quando o monge que o visitava o encontrou morto e viu o bilhete, transportou-o para o mosteiro das monjas e, depois de despido, Pelágio revelou-se Margarida, causando grande admiração pela capacidade de sofrer heroicamente tanta injustiça.
Escusado será dizer que a Margarida passou a ser venerada como santa.


Esta é uma história de nomes.
A margarida (= pérola) mundana, bela e rica, não se reconheceu no mundo.
E, ao procurar uma dimensão mais profunda de si, encontrou na solidão o lugar (pelágia = do pélago = da profundeza do mar) onde as verdadeiras pérolas se colhem.