sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Receita de Sorte

Pegue num trevo, numa rifa e numa chávena de chá e sente-se calmamente no seu sofá preferido. Descalce os sapatos para se sentir mais à vontade. Pode pôr no ar uma música calma desde que com o volume não muito alto. Beba o primeiro golo de chá, aspirando o aroma suavemente.

Abra a camisa e procure no peito o rasto da sua alma. Quando a encontrar, retire-a com cuidado e coloque-a na mão direita. Beba o segundo golo de chá. Observe o trevo e conte exactamente o número de folhas que encontra. Se forem quatro, sorria e coloque o trevo na parte central da alma, assegurando que todas as folhas ficam dispostas com aspecto liso e fresco. Se só tiver encontrado três folhas, faça uma pausa. Beba o terceiro golo de chá. Retire um pouco de massa da sua alma, molde uma folha e cole-a no trevo. Proceda então como acima descrito, sorrindo e bebendo novo golo de chá.


Pegue na rifa e comece a derenrolá-la pacientemente. Pode interromper a operação para beber os últimos golos de chá. Quando a chávena ficar vazia, inspeccione o fundo. Com o dedo, faça o melhor desenho que souber com as borras. Leia finalmente o que diz a rifa e saia de casa.
Fotos:João Santiago, Grendel e Luís Azevedo



quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Pílulas para o Inverno

O senhor do Telejornal diz que o Verão está a acabar. Diz que vem aí a chuva, que apagará os incêndios e que rolará na nossa janela como um rio cinzento. Diz que tamborilaremos os dedos de impaciência à espera que passe e espreitaremos as nuvens por entre pestanas pesadas.
O senhor do Telejornal diz que os sindicatos pedem aumentos de 3,5%. Diz que sonharemos 3,5% mais com uma semana no resort da Inhaca. Diz que por fim encolheremos os ombros com um suspiro, porque afinal já sabíamos...
O senhor do Telejornal diz que há meninas de olhos cor do céu perdidas pelo mundo, que deviam todos os dias brincar aos castelos na areia. Diz que o mundo é cruel e que apertemos o coração com cordões de seda para não o deixarmos cair do peito.

Parece que vou ter saudades do meu barco, este Inverno. Guardei umas pílulas para a saudade.
Fui ao baú e tirei cinco:






terça-feira, 28 de agosto de 2007

Geografia das Estrelas


Perdi-me no horizonte com tanto azul e tanto vento. Perdi a vista da terra, de onde me lançara a pé firme. Cheia de sede, embarquei. Levava no bolso de umas velhas calças de marinheiro, que comprei há muito tempo na Feira da Ladra, o meu breviário. Nele leio as horas espaçadas da solidão.
O meu barco tem três velas. Uma é velha e experiente de toda a sorte de marés. As outras duas são do melhor pano que pude encontrar num armazém de retalhos coloridos. Abraçam-se as três quando o temporal ameaça e rompem todas as intempéries. Sinto-me confiante quando vejo as três de peito erguido à maresia, tão diferentes mas tão afinadas quando entoam a bombordo uma canção de sereias.
O meu rumo não tinha coordenadas. A Praia das Estrelas fica em Não-Sei-Onde. A caminho.



Apesar de possuir um mapa, que um velho pirata me pediu que guardasse em segredo, atravessei mares desconhecidos, deixei os tritões enlouquecerem o leme do meu barco, fazendo-o rodar em volta de muitas ilhas. Ilhas falsas, feitas de bruma enganadora. A geografia dos pés e dos barcos nunca é bem como os piratas a desenham. Toda a gente sabe que os piratas são uma gente pouco real e que bebe rum ao pequeno almoço.
Um dia aportei a um areal tão doce que resolvi descer a terra firme. Tinha as pernas dormentes, de tanto balanço no mar. Arregacei as minhas calças de marinheiro para não as molhar (só trouxe estas), acendi o meu cachimbo e desci à praia.
Ali estavam elas, à minha espera. As Estrelas.
Agora sim, tinha valido a pena a viagem, por uma mão cheia de estrelas.





segunda-feira, 23 de julho de 2007

Rumo ao Sul


De novo rumo ao mar,
onde todas as viagens começam
e todas as pegadas se apagam,
O Breve Viário vai de FÉRIAS .

sábado, 14 de julho de 2007

Dúvidas

Pequenos olhos alcançam
a mais improvável certeza
das formas que não existem,
das cores que ninguém pintou
das verdades imaginadas
que muitos sabem que não são.
Ou serão?


terça-feira, 10 de julho de 2007


Caídos no chão, de mãos arranhadas pelo asfalto,
em busca de amparo dos muros, suamos.
O sol arde sobre os dias de que não é possível fugir.
Gritos da estrada, estridentes apelos de quem viaja,
mãos que se estendem.
Rápida, a passagem.
Caídos na berma, de pés rasgados pela pressa,
em busca dos dias perdidos, do que amámos e já não vem,
da seiva que derramámos, das pétalas amachucadas,
devolvemos os olhos à escuridão.

Silêncio branco e lilás.
De onde os muros poderiam sangrar
nascem hastes floridas.
Os olhos se erguem, as mãos renascem.
A caminho!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Fome de Poesia

Ao longe divisou enfim uma luz clara. Sentia-se exausto da longa caminhada e a fome atormentava-o há tanto tempo que quase esquecera aquela sensação de lacuna, de brancura nas ideias, de falta de consistência. À sua frente, tantas palavras alinhadas, negras e perfeitamente justificadas em margens impecáveis pareciam-lhe um sonho. Interrogava-se sobre como teria conseguido chegar ali, àquele paraíso. Tinha a memória fraca e a respiração pesada do cansaço mas vibravam-lhe entre os olhos umas maiúsculas gordas e redondas que lhe faziam nascer saliva na boca. Talvez delirasse por causa da fome e todas aquelas excelentes colunas desaparecessem quando lhes tocasse. Experimentou fechar os olhos e, quando os reabriu, pôde sentir o odor picante que delas emanava. Podia prever-lhes umas nuances ácidas, delicadamente temperadas com apetitosos toques de dourado e de rubro. Ah, as rubricas! Perdia-se por elas! Avançou, apesar da vista turva e enevoada.



Deu a primeira dentada e suspirou consolado. Estava no ponto! Instalou-se confortavelmente para continuar a refeição. Comeu primeiro todos os títulos de capítulo, depois provou a numeração das páginas, que abandonou rapidamente para atacar decidido vinte estrofes de seguida. Não queria exagerar mas, saltando mais para trás, não pôde deixar de provar também uma introdução magnífica, decorada com traços filigranados nas margens. Obra requintada, de paladar digno de um rei! Por fim, reservou para sobremesa umas notas de rodapé, em corpo 9, delicadíssimas.
Reclinou-se satisfeito e pensou para consigo que aquele era um belo sítio para viver. Não lhe faltariam refeições como aquela por muitos anos e poderia até pensar em constituir família. Olhou para o que restava do seu maravilhoso repasto, encostou-se na delicada carneira da encadernação e adormeceu, embalado em belos sonhos.