domingo, 16 de dezembro de 2007

PRESÉPIOS


Presépio vem da palavra latina que significa estábulo, que foi onde nasceu, diz S.Lucas, o menino Jesus.

No princípio não era um tema muito tratado na arte iconográfica porque se dava mais importância à representação de outros momentos da vida de Jesus, como a Paixão ou a Epifania. Por isso, nas representações mais antigas do nascimento aparecia apenas Maria com o menino nos braços, apresentando-o aos pastores e aos magos. Nada de S.José, que era figura insignificante no acontecimento. A vaca e a burra também não entravam na história, nem as ovelhas.
A partir do séc.XI, os magos passam a ser também reis, representados com coroa, e fixam-se em número de três, que era um número redondo para mostrar a globalidade das raças humanas. Portanto, um deles passou a ser preto. Aos poucos S.José foi aparecendo mas quase sempre num plano recuado em relação a Maria. No séc. XII, com a difusão dos evangelhos apócrifos, onde aparece a vaca e a burra, o presépio entra na moda e fazem-se representações ao ar livre, com mímica, nos adros das igrejas ou atrás do altar-mor. Aqui começava a história do teatro europeu. Como às vezes estas “peças” geravam desordens, a igreja proibiu-as.


No Natal de 1223, S.Francisco de Assis obteve autorização papal para fazer um presépio, que montou em Greccio com figuras de tamanho natural feitas de madeira, palha e tecido, e juntou-lhes uma vaca e uma burra vivas. O presépio populariza-se definitivamente e difunde-se por toda a Europa, graças sobretudo à promoção que dele fizeram os franciscanos.


No séc. XIV já aparece representado no túmulo de Inês de Castro em Alcobaça e não têm conta as iluminuras do séc.XV que trataram o tema:



Aqui, as regras de representação não incluíam o realismo, por isso, o estábulo é estilizado e preenchido com um manto púrpura e dourado que desce a acolher Maria e o menino. S.José fica de fora do manto.


Nunca mais o presépio deixou de inspirar os grandes pintores portugueses. Por exemplo Grão Vasco (1475/80?-1542743?), com este quadro:





Aproximando-se já da linguagem renascentista, com paisagem em perspectiva ao fundo e realismo nas figuras humanas, as vestes continuam a representar figuras da época do pintor, como se usava nos séculos anteriores, e a arquitectura do cenário continua evocativa e simbólica.



Neste outro, Grão Vasco já adopta a representação realista do espaço e faz-nos sorrir com a particularidade da representação do mago negro como um índio brasileiro, em clara “actualização” do Natal vista por um pintor curioso pelas mais recentes novidades:






No séc. XVII, Josefa de Óbidos (1630-1684) não esqueceu o presépio, por exemplo aqui:





Ou neste outro, de enorme intensidade dramática graças aos fortes contrastes de luz e de sombra e onde Maria e José são substituídos por Francisco e Clara, numa belíssima evocação romântica da ligação amorosa dos dois santos de Assis: